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Múltiplas vias biológicas explicam os
efeitos terapêuticos da acupuntura
Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento
Uma reportagem científica publicada na revista PNAS sintetizou as evidências acumuladas nas últimas décadas sobre as bases neurobiológicas da acupuntura. A revisão da literatura demonstra que os benefícios clínicos da técnica — particularmente no tratamento da dor crônica, osteoartrite e efeitos colaterais de tratamentos oncológicos — ultrapassam o efeito placebo e são mediados por múltiplas vias biológicas. O achado central indica que a inserção de agulhas estimula a liberação local de moléculas como a adenosina e aciona vias neurais ascendentes que sinalizam ao tronco encefálico. Em resposta, o cérebro ativa circuitos inibitórios descendentes e promove a liberação sistêmica de opioides endógenos (como endorfinas) e neurotransmissores (como serotonina), que atuam conjuntamente para bloquear os sinais de dor.
A literatura revisada também aponta para mecanismos além do sistema nervoso central, envolvendo a modulação do tecido conjuntivo e do sistema nervoso autônomo. Estudos de imagem e mapeamento anatômico mostraram que a rotação das agulhas de acupuntura interage fisicamente com a fáscia e o interstício (a rede de espaços preenchidos por fluido entre os tecidos), ativando células locais chamadas fibroblastos e desencadeando respostas anti-inflamatórias. Adicionalmente, técnicas modernas como a eletroacupuntura (que aplica correntes elétricas de baixa intensidade através das agulhas) demonstraram capacidade de ativar o nervo vago. Essa ativação vagal cria um reflexo que atinge a glândula adrenal, regulando sistemicamente a inflamação e as respostas ao estresse.
Essas descobertas aproximam a prática milenar da medicina tradicional chinesa do campo emergente da medicina bioeletrônica. Embora ainda existam lacunas sobre como pontos locais específicos podem gerar efeitos em órgãos distantes, a identificação dessas vias biológicas (neuromodulação, sinalização do tecido conjuntivo e regulação vagal) fornece uma base mecanicista sólida para a eficácia da acupuntura. A integração de dados anatômicos em modelos tridimensionais, aliada a ensaios clínicos rigorosos, promete otimizar protocolos de tratamento para condições que vão além do controle da dor, incluindo distúrbios digestivos e disfunções imunológicas.
Referência: Peeples, L. What's the science behind acupuncture? PNAS. 2026;123(10):e2605301123. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.2605301123 |