A dor crônica
é um dos maiores desafios da saúde
contemporânea. Ela compromete a qualidade de
vida, impacta a produtividade, altera
relações pessoais e profissionais e é um dos
principais fatores de procura por
atendimento médico. Frente às limitações e
efeitos colaterais de muitos medicamentos,
não surpreende que milhões de pessoas
recorram a terapias complementares e
alternativas na busca por alívio. Entre
elas, a Ventosaterapia, popularmente chamada
de ventosa, ganhou destaque e tornou-se um
fenômeno cultural, propagado em redes
sociais, academias e clínicas de estética.
Entretanto,
quando confrontamos o fascínio popular com o
que a ciência efetivamente demonstra, a
discrepância é evidente. Estudos
qualitativos, revisões sistemáticas e
meta-publicados nos últimos anos trazem uma
mensagem clara: os efeitos da ventosaterapia
no manejo da dor existem, mas são limitados,
de curta duração e sustentados por
evidências de baixa a moderada qualidade.
O que
mostram os estudos
Meta-análises
recentes apontam que a ventosa pode reduzir
a intensidade da dor em condições
musculoesqueléticas, como lombalgia e
osteoartrite de joelho. Esses efeitos, no
entanto, se concentram no curto prazo,
geralmente de semanas a dois meses. Não há
comprovação robusta de benefício sustentado
em períodos mais longos. Além disso, a
heterogeneidade entre os estudos é
significativa: diferentes protocolos, pontos
de aplicação, duração das sessões e até
técnicas distintas (ventosa seca e ventosa
úmida) tornam difícil comparar resultados e
estabelecer recomendações padronizadas (3).
Estudos
qualitativos permitem complementar esta
informação com outra perspectiva: muitos
pacientes relatam melhora tanto com a
ventosa “real” quanto com versões simuladas
(sham cupping). Isso evidencia que as
expectativas, a atenção recebida do
terapeuta e o próprio ritual da técnica
desempenham papel importante no alívio da
dor. Em termos científicos, isso nos leva a
reconhecer o peso dos efeitos de contexto e
placebo no tratamento. Tais efeitos não
devem ser desprezados, mas tampouco
confundidos com eficácia fisiológica
comprovada (2).
O risco das
promessas exageradas
O maior perigo
não está em reconhecer que a ventosa pode
ter efeitos positivos no curto prazo. O
problema surge quando esses efeitos
limitados são transformados em promessas de
cura definitiva ou tratamento exclusivo para
a dor crônica. Muitos profissionais,
clínicas e influenciadores digitais se
apoiam em estudos pouco robustos, ou
utilizam informação fragmentada e
descontextualizada para justificar alegações
grandiosas. Essa prática distorce o
entendimento do público, alimenta
expectativas irreais e, em última instância,
explora a vulnerabilidade de quem convive
com dor.
O resultado é
um mercado que movimenta dinheiro, mas não
necessariamente melhora a vida dos
pacientes. Pior ainda, pode atrasar ou
substituir tratamentos que têm comprovação
científica sólida. Quando um paciente
acredita que a ventosa resolverá sua dor
crônica e adia a fisioterapia, o
acompanhamento médico ou a adesão a
estratégias comprovadas, ele corre o risco
de agravar sua condição.
Segurança,
riscos e contraindicações
É verdade que
a ventosa é, em geral, uma prática de baixo
risco. No entanto, os efeitos adversos não
são desprezíveis. O uso da técnica com
frequência pode causar equimoses, dor local,
sensibilidade aumentada e manchas
persistentes. No caso da ventosa úmida (wet
cupping), os riscos se ampliam: cortes
superficiais feitos na pele podem resultar
em infecções, cicatrizes e complicações
graves em pacientes com distúrbios de
coagulação ou que utilizam anticoagulantes
(3,5).
Além disso, a
prática é contraindicada em pessoas com pele
lesionada, infecções ativas, distúrbios
hematológicos, gestantes em determinadas
regiões do corpo, crianças pequenas e idosos
frágeis. Esses cuidados raramente são
mencionados em divulgações comerciais da
ventosaterapia, o que agrava o risco de
banalização da técnica.
O lugar da
ventosa no cuidado
O debate não
deve girar em torno de “funciona ou não
funciona”. A ventosa pode sim ser
considerada como parte de um cuidado
multimodal, especialmente em pacientes que
buscam alternativas adicionais de alívio.
Mas para isso, é necessário colocar a
técnica em seu devido lugar: como adjuvante,
nunca como substituto de terapias
comprovadas. A honestidade científica exige
que os pacientes sejam informados de que os
benefícios são de curta duração,
provavelmente mediados por fatores de
contexto, e que os riscos existem e devem
ser ponderados.
É importante
destacar que o uso de ventosas pode
proporcionar alívio aos pacientes, mas não
trata o mecanismo causador da dor. Seu valor
reside no manejo sintomático e temporário da
dor, atuando como um valioso coadjuvante
dentro de um plano de tratamento integral. O
objetivo clínico deve continuar sendo
identificar e abordar a fisiopatologia de
origem por meio das intervenções mais
adequadas para cada caso (5).
Ciência,
ética e honestidade
O que se
espera de profissionais da saúde e de
comunicadores que abordam o tema é
transparência. Reconhecer limitações não
diminui a relevância da ventosa no contexto
cultural ou terapêutico, mas evita que ela
seja transformada em promessa vazia. A dor é
um problema complexo, multifatorial e muitas
vezes resistente a tratamentos simplistas.
Oferecer soluções mágicas baseadas em
evidência frágil não apenas desrespeita a
ciência, como desrespeita o paciente.
Uma
alternativa é desenvolver projetos de
pesquisa com rigor metodológico, o que
também seria uma forma de fortalecer os
níveis de evidência e esclarecer as lacunas
em torno do tema. No entanto, com as
informações disponíveis, o caminho a seguir
é o da comunicação crítica, acessível e
ética. Projetos de informação devem mostrar
tanto os potenciais benefícios quanto os
limites da técnica, reforçando que saúde
baseada em evidências não é uma barreira,
mas um guia para escolhas mais seguras e
conscientes.
Em suma, a
ventosaterapia ocupa um espaço interessante
na discussão sobre dor, mas não deve ser
tratada como solução definitiva. É hora de
abandonar o marketing fantasioso e construir
uma narrativa responsável: a ventosa pode
ajudar no curto prazo, mas não substitui o
que a ciência já validou para o manejo da
dor a longo prazo. Promessas exageradas não
curam. Ciência crítica, ética e informação
honesta, sim.
Referências
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* Discentes do
Programa de Pós-Graduação Ciências e
Tecnologias em Saúde PPCTS- UnB