A
International Association for the Study of
Pain (IASP) anualmente convida a comunidade
científica e clínica a refletir sobre uma
questão central e urgente relacionada à dor.
Nos últimos 9 anos, o Portal DOL publicou 6
editoriais sobre o Ano Global da Dor.
Em 2016, o
editorial sobre o Ano Global destacou o
impacto das doenças articulares e a
importância de compreender sua
fisiopatologia e manejo multidisciplinar. Em
2017, o Ano Internacional contra a Dor após
Cirurgias trouxe à tona os desafios da dor
aguda e o risco de cronificação
pós-operatória, incentivando práticas
baseadas em evidências. Em 2018, o foco se
voltou para a formação profissional, com o
Ano Global da Excelência na Educação da Dor,
reforçando a necessidade de integrar o
ensino sobre dor em todos os níveis da
educação em saúde. Já em 2019, a IASP
dedicou o Ano Global contra a Dor nos Mais
Vulneráveis a uma chamada emergencial por
equidade no cuidado, alertando para a
exclusão de grupos em situação de
vulnerabilidade social, econômica e de
saúde. O Ano Global da Dor Lombar, em 2021,
consolidou-se como um marco na disseminação
de estratégias de prevenção e tratamento
dessa condição que afeta milhões de pessoas
mundialmente. Em 2022, o tema Traduzindo
Conhecimento sobre Dor à Prática Clínica
enfatizou a necessidade de converter a
pesquisa científica em ações concretas que
melhorem o cuidado cotidiano dos pacientes
[1-7].
Em 2025, o Ano
Global examinará o manejo da dor, pesquisa e
educação em todos os tipos de contextos de
baixa e média renda, como em países de baixa
e média renda (PBMRs), povos aborígenes,
grupos culturalmente diversos e refugiados
em países de alta renda. A IASP convida a
refletir sobre como promover o cuidado
equitativo da dor em contextos marcados por
desigualdades socioeconômicas e estruturais
[8].
A dor, embora
universal, é vivenciada e tratada de forma
desigual. Em países de baixa e média renda
milhões de pessoas continuam sem acesso a
terapias eficazes, medicamentos essenciais e
profissionais capacitados. Essas pessoas
vivem com dor não tratada ou subtratada
devido à escassez de recursos,
infraestrutura inadequada, barreiras no
acesso a medicamentos e insuficiência de
formação profissional. A ausência de
políticas públicas específicas e a limitação
no uso seguro de opioides refletem uma crise
silenciosa de inequidade em saúde. [9].
Nesse sentido,
a IASP reconhece que fortalecer a educação e
a pesquisa é essencial para transformar
realidades locais e construir sistemas de
cuidado sustentáveis. Nos PBMRs, a produção
científica sobre dor enfrenta desafios
estruturais desde o financiamento até a
visibilidade internacional, mas é justamente
nesses contextos que emergem soluções
inovadoras, culturalmente adaptadas e
baseadas em comunidades [9]. O Ano Global
2025 propõe valorizar essas experiências e
fomentar redes colaborativas regionais e
globais para ampliar o impacto do
conhecimento local.
Foram
estruturados mecanismos estratégicos para
fomentar e divulgar os conceitos da dor em
contextos com poucos recursos. Um dos
primeiros mecanismos é a constituição de um
Grupo de Trabalho (Task Force), com
participantes de diferentes regiões
geográficas e perfis profissionais,
incluindo pesquisadores, profissionais de
saúde e educadores de PBMRs. Esse grupo
supervisiona as ações do ano global,
assegurando perspectiva contextualizada.
É necessário
identificar desafios e oportunidades na
abordagem da dor em PBMRs, advocar por maior
financiamento para pesquisa de qualidade
nesses contextos, explorar mecanismos para
melhorar a educação de profissionais de
saúde nessas comunidades, aumentar acesso a
manejo da dor de alta qualidade, promovendo
ações de autocuidado com baixo custo e
incentivar o cuidado interdisciplinar e
multidisciplinar [10].
Para gerar
impacto prático, há uma série de ações (outputs)
planejados: emissão de factsheets por
especialistas, webinars, destaques em
periódicos como PAIN e PAIN Reports,
tradução de documentos informativos para
múltiplos idiomas, com o objetivo de
alcançar pacientes, profissionais de saúde,
pesquisadores e formuladores de políticas de
saúde.
A IASP oferece
ainda recursos especializados, como o Pain
Management Center Toolkit, para apoiar a
criação ou fortalecimento de serviços de dor
em ambientes com recursos limitados.
Temas
importantes são tratados em Webinars via o
aplicativo PERC (Pain Education Resource
Center), com temas como “Implementing
Interdisciplinary Pain Management in Limited
Resource Settings”, “Enhancing Equity,
Diversity and Inclusivity in Pain Research”,
entre outros.
Outra
estratégia é a adaptação de diretrizes
globais para contextos locais, reconhecendo
que protocolos ou recomendações
desenvolvidos para contextos de alta renda
muitas vezes não se aplicam diretamente em
contextos de escassez de recursos. A
adaptação requer consideração de fatores
culturais, infraestrutura existente, acesso
a medicamentos, habilidades disponíveis,
dentre outros. Esse tema é apresentado em um
dos artigos selecionados pela IASP, o qual
indica os itens mais relevantes para a
equidade em pesquisa sobre dor: um estudo
e-Delphi modificado [11].
Além disso, a
IASP busca envolver a todos por meio de
advocacy e engajamento, com campanhas de
conscientização usando mídias sociais
(#GlobalYear2025), colaboração com parceiros
locais e mobilização de formuladores de
políticas para reconhecerem a dor como uma
questão de saúde pública que demanda
intervenções sustentáveis.
Por fim, há
ênfase em monitoramento e mensuração do
progresso, ainda que o site do Ano Global
não apresente um painel de indicadores
completo, as ações planejadas (webinars,
fact sheets, traduções, desenvolvimento
curricular, pesquisa) permitem rastrear o
alcance, engajamento e mudanças de prática
ao longo do ano. Esse monitoramento é
fundamental para avaliar o impacto real do
ano global.
Referências:
[1] IASP.
Global Year Against Pain in the Joints
(2016). Disponível em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2016-joint-pain/
[2] IASP.
Global Year Against Pain After Surgery
(2017). Disponível em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2017-pain-after-surgery/
[3] IASP.
Global Year for Excellence in Pain
Education (2018). Disponível em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2018-pain-education/
[4] IASP.
Global Year Against Pain in the Most
Vulnerable (2019). Disponível em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2019-pain-in-the-most-vulnerable/
[5] IASP.
Global Year About Back Pain (2021).
Disponível em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2021-back-pain/
[6] IASP.
Global Year for Translating Pain
Knowledge to Practice (2022). Disponível
em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2022-translating-pain-knowledge-to-practice/
[7] IASP.
Global Year 2025: Pain Management,
Research, and Education in Low- and
Middle-Income Settings. Disponível em:
https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2025-pain-management-research-education-lmic/
[8] DOL –
Dor Online. Editorais dos Anos Globais
da IASP (2016–2022). Disponíveis em:
https://dol.dor.org.br/
[9]
Morriss, W. W., & Roques, C. J. (2018).
Pain management in low- andmiddle-income
countries. In BJA Education (Vol. 18,
Issue 9, pp. 265–270). Elsevier Ltd.
https://doi.org/10.1016/j.bjae.2018.05.006.
[10]
Soyannwo, O., Chaudakshetrin, P., &
Garcia, J. B. (2023). The value of the
International Association for the Study
of Pain to developing countries. Pain,
164(11S), S39–S42.
https://doi.org/10.1097/j.pain.
[11]
Karran EL, Cashin AG, Barker T, Boyd MA,
Chiarotto A, Maxwell LJ, Mohabir V,
Sharma S, Tugwell P, Moseley GL.
Developing consensus on the most
important equity-relevant items to
include in pain research: a modified
e-Delphi study. Pain. 2025 Oct
1;166(10):e378-e387. doi: 10.1097/j.pain.0000000000003621.
Epub 2025 Apr 16. PMID: 40258130.
* Alunos de
pós-graduação da disciplina "Ação
Multi-institucional de Divulgação Científica
DOL - Dor On Line - FCTS UnB