A fibromialgia
é uma síndrome crônica e multifatorial,
caracterizada por dor persistente, fadiga,
distúrbios do sono e sintomas cognitivos e
emocionais. Suas manifestações variam
significativamente entre indivíduos (1). Sua
prevalência global é estimada em cerca de
2,7%, com variações entre regiões e
populações (2). Embora sua etiologia
permaneça desconhecida, (3) sabe-se que
envolve mecanismos de sensibilização
central, nos quais os sinais neurais são
amplificados no sistema nervoso central,
intensificando a percepção dolorosa (4).
A dor crônica
na fibromialgia decorre de um desequilíbrio
entre as vias excitatórias e inibitórias da
dor. As vias inibitórias parecem estar
comprometidas (5). Essa condição impacta
diretamente a capacidade funcional, levando
à redução de força, resistência muscular e
coordenação motora. Consequentemente, muitos
pacientes limitam suas atividades diárias e
evitam exercícios físicos por receio de
agravamento da dor, gerando um comportamento
de evitação (4).
Estudos
apontam ainda para uma baixa adesão
medicamentosa: cerca de 72,5% dos pacientes
não seguem corretamente as prescrições.
Assim, as diretrizes atuais enfatizam o
papel das intervenções não farmacológicas no
manejo da dor e de seus sintomas associados
(1). Nesse contexto, destaca-se a
importância de abordagens multimodais que
integrem estratégias farmacológicas,
comportamentais e neuromoduladoras.
As diretrizes
recomendam intervenções não farmacológicas,
como exercícios aeróbicos, terapia
cognitivo-comportamental e educação em
neurociência da dor. Essas estratégias
apresentam eficácia comprovada, mas a adesão
ainda é um desafio, principalmente devido às
limitações funcionais impostas pela síndrome
(3).
Técnicas não
invasivas de estimulação cerebral, como a
estimulação transcraniana por corrente
contínua (tDCS), têm se mostrado seguras e
acessíveis. Elas proporcionam alívio da dor
em diversas condições crônicas, incluindo
fibromialgia, osteoartrite do joelho, dor
pós acidente vascular encefálico e dor
crônica após lesão medular, com efeitos
colaterais mínimos ou ausentes (5) Diante
disso, a (tDCS), surge como recurso
adicional e uma intervenção promissora com
potencial de aliviar os sintomas da
fibromialgia por modulação da atividade de
regiões cerebrais que participam dos
processos de percepção e controle da dor
(6).
A tDCS
consiste em uma técnica de neuromodulação
não invasiva aplicada por meio de correntes
de baixa intensidade (0,5–2 mA) com
colocação de eletrodos no couro cabeludo
(1,4). Seu mecanismo de ação promove a
modulação da excitabilidade neuronal (1) e
sua aplicação prolongada e contínua pode
efetuar modificação plástica (3).
Os principais
alvos de estimulação incluem o córtex motor
primário (M1), associado ao controle da dor,
e o córtex dorsolateral pré-frontal (DLPFC),
relacionado a aspectos emocionais e
cognitivos, como a catastrofização da dor
(1). Essa técnica pode atuar por meio de
efeitos neuroquímicos, modulando
neurotransmissores relacionados à dor. A
estimulação anódica em M1 ou outras regiões
favorece a liberação de substâncias
inibitórias e opioides endógenos, enquanto
reduz a de neurotransmissores excitatórios,
o que contribui para menor sensibilidade e
maior tolerância à dor em pacientes com
Fibromialgia (7).
Estudos
apontam que o tDCS apresenta baixo risco,
sendo os efeitos adversos geralmente leves e
transitórios, como eritema local ou cefaleia
(8). Porém essas reações cutâneas podem ser
prevenidas com medidas, como higienização
suave da pele, posicionamento adequado dos
eletrodos e evitar regiões inflamadas ou com
cicatrizes, contribuindo para reduzir
desconfortos (8). Além disso, os
participantes devem ser instruídos a relatar
desconforto imediatamente.
Diversos
estudos apontam que a neuromodulação não
invasiva teve impacto no alívio da dor e na
melhora funcional de pacientes com
fibromialgia (9–11). Uma metanálise recente
incluiu 20 estudos e evidenciou que a tDCS
ativa promoveu redução da dor em pacientes
com fibromialgia em relação à intervenção
simulada, tanto em M1 quanto em DLPFC (6).
Em relação a intensidade da corrente, a
análise indicou que a corrente de 2 mA,
utilizada na maioria dos estudos, reduziu a
dor em comparação ao sham, mas não se
diferenciou de protocolos com intensidades
menores (6).
Apesar dos
resultados promissores, ainda há limitações
e heterogeneidade entre os estudos, o que
dificulta conclusões definitivas sobre a
eficácia e o protocolo ideal da tDCS para
fibromialgia. Um ponto importante é a
escassez de acompanhamentos de longo prazo,
o que impede avaliar a durabilidade dos
efeitos da técnica sobre os desfechos de
dor. Essa limitação restringe a relevância
clínica e a aplicabilidade da tDCS no manejo
da dor crônica em pacientes que necessitam
de tratamento prolongado (6).
De acordo com
as diretrizes baseadas em evidências de
Lefaucheur et al. (12), a tDCS anódica
aplicada na região de M1 esquerdo, com
cátodo na região orbitofrontal direito,
recebe recomendação de Nível B para
fibromialgia, o que indica provável
eficácia. Até o momento, nenhuma aplicação
de tDCS ou condição relacionada atingiu
Nível A, reforçando a necessidade evidências
de maior qualidade e robustez.
A associação
da tDCS com outras estratégias terapêuticas,
como exercícios aeróbicos, terapia
cognitivo-comportamental ou programas
orientados à tarefa, pode potencializar os
efeitos neuromodulatórios e ampliar os
benefícios analgésicos (13). Essa combinação
pode otimizar a neuroplasticidade e
favorecer maior adesão e engajamento dos
pacientes, sobretudo em protocolos de
reabilitação integrados.
Assim, a tDCS
se apresenta como uma alternativa
terapêutica viável, promissora e segura para
pacientes com fibromialgia, com poucos ou
nenhum efeito adverso e altas taxas de
adesão. No entanto, ainda são necessários
estudos adicionais para avaliar sua
segurança e tolerabilidade a longo prazo,
sobretudo em protocolos domiciliares ou auto
administrados.
Também há
demanda por protocolos mais padronizados e
individualizados, considerando a
variabilidade dos parâmetros de estimulação
e dos locais-alvo. Pesquisas futuras devem
buscar definir a intensidade, duração,
frequência e montagem de eletrodos ideais
para cada perfil de paciente. Além disso, a
tDCS pode apresentar efeitos sinérgicos
quando combinada com outras intervenções,
como farmacoterapia, terapia
cognitivo-comportamental, exercícios ou
neurofeedback. Estudos futuros devem incluir
amostras maiores, investigar os efeitos
sustentados e relatar de forma detalhada os
possíveis efeitos colaterais, fortalecendo a
base científica sobre o tema.
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* Alunos de
mestrado - UnB - disciplina da Pós-Graduação
** Professor do curso de fisioterapia - UnB
e orientador no Programa de Pós graduação em
Ciências e Tecnologias em Saúde.