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Editorial do mês

 

 

Ventosaterapia - entre o fascínio popular e a realidade científica
Thiago de Sousa Alencar, Carlos Rafael Araujo Inastrilla e Gonçalo Carreiro de Farias Junior *

 

A dor crônica é um dos maiores desafios da saúde contemporânea. Ela compromete a qualidade de vida, impacta a produtividade, altera relações pessoais e profissionais e é um dos principais fatores de procura por atendimento médico. Frente às limitações e efeitos colaterais de muitos medicamentos, não surpreende que milhões de pessoas recorram a terapias complementares e alternativas na busca por alívio. Entre elas, a Ventosaterapia, popularmente chamada de ventosa, ganhou destaque e tornou-se um fenômeno cultural, propagado em redes sociais, academias e clínicas de estética.

 

Entretanto, quando confrontamos o fascínio popular com o que a ciência efetivamente demonstra, a discrepância é evidente. Estudos qualitativos, revisões sistemáticas e meta-publicados nos últimos anos trazem uma mensagem clara: os efeitos da ventosaterapia no manejo da dor existem, mas são limitados, de curta duração e sustentados por evidências de baixa a moderada qualidade.

 

O que mostram os estudos

 

Meta-análises recentes apontam que a ventosa pode reduzir a intensidade da dor em condições musculoesqueléticas, como lombalgia e osteoartrite de joelho. Esses efeitos, no entanto, se concentram no curto prazo, geralmente de semanas a dois meses. Não há comprovação robusta de benefício sustentado em períodos mais longos. Além disso, a heterogeneidade entre os estudos é significativa: diferentes protocolos, pontos de aplicação, duração das sessões e até técnicas distintas (ventosa seca e ventosa úmida) tornam difícil comparar resultados e estabelecer recomendações padronizadas (3).

 

Estudos qualitativos permitem complementar esta informação com outra perspectiva: muitos pacientes relatam melhora tanto com a ventosa “real” quanto com versões simuladas (sham cupping). Isso evidencia que as expectativas, a atenção recebida do terapeuta e o próprio ritual da técnica desempenham papel importante no alívio da dor. Em termos científicos, isso nos leva a reconhecer o peso dos efeitos de contexto e placebo no tratamento. Tais efeitos não devem ser desprezados, mas tampouco confundidos com eficácia fisiológica comprovada (2).

 

O risco das promessas exageradas

 

O maior perigo não está em reconhecer que a ventosa pode ter efeitos positivos no curto prazo. O problema surge quando esses efeitos limitados são transformados em promessas de cura definitiva ou tratamento exclusivo para a dor crônica. Muitos profissionais, clínicas e influenciadores digitais se apoiam em estudos pouco robustos, ou utilizam informação fragmentada e descontextualizada para justificar alegações grandiosas. Essa prática distorce o entendimento do público, alimenta expectativas irreais e, em última instância, explora a vulnerabilidade de quem convive com dor.

 

O resultado é um mercado que movimenta dinheiro, mas não necessariamente melhora a vida dos pacientes. Pior ainda, pode atrasar ou substituir tratamentos que têm comprovação científica sólida. Quando um paciente acredita que a ventosa resolverá sua dor crônica e adia a fisioterapia, o acompanhamento médico ou a adesão a estratégias comprovadas, ele corre o risco de agravar sua condição.

 

Segurança, riscos e contraindicações

 

É verdade que a ventosa é, em geral, uma prática de baixo risco. No entanto, os efeitos adversos não são desprezíveis. O uso da técnica com frequência pode causar equimoses, dor local, sensibilidade aumentada e manchas persistentes. No caso da ventosa úmida (wet cupping), os riscos se ampliam: cortes superficiais feitos na pele podem resultar em infecções, cicatrizes e complicações graves em pacientes com distúrbios de coagulação ou que utilizam anticoagulantes (3,5).

 

Além disso, a prática é contraindicada em pessoas com pele lesionada, infecções ativas, distúrbios hematológicos, gestantes em determinadas regiões do corpo, crianças pequenas e idosos frágeis. Esses cuidados raramente são mencionados em divulgações comerciais da ventosaterapia, o que agrava o risco de banalização da técnica.

 

O lugar da ventosa no cuidado

 

O debate não deve girar em torno de “funciona ou não funciona”. A ventosa pode sim ser considerada como parte de um cuidado multimodal, especialmente em pacientes que buscam alternativas adicionais de alívio. Mas para isso, é necessário colocar a técnica em seu devido lugar: como adjuvante, nunca como substituto de terapias comprovadas. A honestidade científica exige que os pacientes sejam informados de que os benefícios são de curta duração, provavelmente mediados por fatores de contexto, e que os riscos existem e devem ser ponderados.

 

É importante destacar que o uso de ventosas pode proporcionar alívio aos pacientes, mas não trata o mecanismo causador da dor. Seu valor reside no manejo sintomático e temporário da dor, atuando como um valioso coadjuvante dentro de um plano de tratamento integral. O objetivo clínico deve continuar sendo identificar e abordar a fisiopatologia de origem por meio das intervenções mais adequadas para cada caso (5).

 

Ciência, ética e honestidade

 

O que se espera de profissionais da saúde e de comunicadores que abordam o tema é transparência. Reconhecer limitações não diminui a relevância da ventosa no contexto cultural ou terapêutico, mas evita que ela seja transformada em promessa vazia. A dor é um problema complexo, multifatorial e muitas vezes resistente a tratamentos simplistas. Oferecer soluções mágicas baseadas em evidência frágil não apenas desrespeita a ciência, como desrespeita o paciente.

 

Uma alternativa é desenvolver projetos de pesquisa com rigor metodológico, o que também seria uma forma de fortalecer os níveis de evidência e esclarecer as lacunas em torno do tema. No entanto, com as informações disponíveis, o caminho a seguir é o da comunicação crítica, acessível e ética. Projetos de informação devem mostrar tanto os potenciais benefícios quanto os limites da técnica, reforçando que saúde baseada em evidências não é uma barreira, mas um guia para escolhas mais seguras e conscientes.

 

Em suma, a ventosaterapia ocupa um espaço interessante na discussão sobre dor, mas não deve ser tratada como solução definitiva. É hora de abandonar o marketing fantasioso e construir uma narrativa responsável: a ventosa pode ajudar no curto prazo, mas não substitui o que a ciência já validou para o manejo da dor a longo prazo. Promessas exageradas não curam. Ciência crítica, ética e informação honesta, sim.

 

Referências


* Discentes do Programa de Pós-Graduação Ciências e Tecnologias em Saúde PPCTS- UnB