A hormonização
corresponde ao uso de hormônios sintéticos
para modificar os níveis hormonais do
organismo, sendo fundamental para a
afirmação de gênero de pessoas transgênero,
em razão de seus efeitos sobre as
características sexuais secundárias.
Considera-se transgênero a pessoa cuja
identidade de gênero difere do sexo
atribuído ao nascimento. As terapias
hormonais exercem papel essencial no
alinhamento das características físicas ao
gênero com o qual a pessoa se identifica,
contribuindo para a redução da disforia e a
melhora do bem-estar e da qualidade de vida
dessa população. Entretanto, estudos indicam
presença de dor em alguns casos, podendo ser
dor crônica generalizada ou outros tipos de
dores localizadas (1).
A relação
entre hormonização e dor é complexa e
multifatorial, dependendo do tipo de terapia
hormonal utilizada. Evidências científicas
indicam que a testosterona tende a elevar o
limiar de dor, exercendo um efeito protetor,
enquanto o estrogênio, sobretudo em
contextos de flutuação hormonal, pode
aumentar a sensibilidade dolorosa. Assim, em
pessoas transgênero, os efeitos da terapia
hormonal variam: a administração de
testosterona pode reduzir quadros dolorosos,
como enxaquecas e dores musculoesqueléticas;
por outro lado, a terapia estrogênica pode
estar associada à intensificação de
cefaleias, dores temporomandibulares e
mastalgia. Em síntese, a terapia hormonal
modula a percepção da dor: a testosterona
apresenta efeito analgésico até certo ponto,
enquanto o estrogênio, em níveis flutuantes,
tende a intensificar a sensibilidade
dolorosa (2,3).
Em mulheres
transgênero, que recebem hormônios
feminilizantes como estrogênio associado a
antiandrógenos, alguns efeitos dolorosos têm
sido relatados. Entre eles, destacam-se o
aumento na frequência de dores de cabeça, a
presença de dor mamária relacionada ao
crescimento do tecido induzido pelos
hormônios, além de maior risco de dor
crônica generalizada e dor visceral (3,4).
Estudos experimentais sugerem que o
estrogênio pode intensificar a sensibilidade
à dor, inclusive modulando receptores
envolvidos na nocicepção. Em mulheres
cisgênero, observou-se ainda que a reposição
de estrogênio pode agravar sintomas de
enxaqueca e distúrbios temporomandibulares.
Apesar desses efeitos, a terapia hormonal de
afirmação de gênero nessas pessoas está
consistentemente associada a melhorias na
qualidade de vida, redução de ansiedade e
depressão (2,3).
Em homens
transgênero, que utilizam hormônios
masculinizantes como a testosterona, os
resultados são em geral mais positivos no
que se refere à dor. A testosterona
apresenta efeito analgésico, aumentando o
limiar de dor e reduzindo condições
pré-existentes de dor crônica. Muitos
relatam melhora de dores de cabeça e redução
da dor musculoesquelética. Modelos
experimentais também mostram que a
testosterona diminui a sensibilidade
visceral à dor. Por outro lado, existem
situações em que a dor pode surgir ou se
intensificar: alguns pacientes relatam
agravamento de dores de cabeça, há o risco
de dor mamária associado ao uso de chest
binding (prática de comprimir o tecido
mamário com faixas) e a dor em exames
ginecológicos tende a ser maior nessa
população (2–5).
A
administração de testosterona em homens
transgêneros requer acompanhamento
individualizado, considerando resposta
clínica, níveis hormonais e possíveis
efeitos adversos. O manejo da dor pélvica
nessa população, conforme destacado no
editorial da Revista Dor On-Line — Dor
pélvica em pessoas transgênero submetidas a
terapia com testosterona (6), pode incluir
medidas farmacológicas, como o uso de
anti-inflamatórios, ou até intervenções
cirúrgicas, embora a histerectomia nem
sempre resulte em alívio completo.
Ressalta-se que a dor pélvica apresenta
etiologia multifatorial, envolvendo aspectos
físicos, hormonais e emocionais, podendo
estar associada à terapia com testosterona e
às mudanças anatômicas e fisiológicas
decorrentes do tratamento.
A dor
torácica, embora menos frequentemente
reportada, apresenta prevalência aumentada
em pessoas trans em comparação a seus grupos
biológicos de referência. Entre homens trans,
o binding oferece alívio psicológico, mas
pode causar excesso de pele, abrasões,
infecções e dor, exigindo orientação segura
e, em alguns casos, acompanhamento
fisioterapêutico (4). Estudos longitudinais
indicam que cerca de 80% das mulheres trans
relatam dor após o início da hormonização,
enquanto quase metade dos homens trans
descreve melhora significativa (3).
Pesquisas recentes reforçam que a
experiência da dor nessa população é
modulada por fatores fisiológicos,
emocionais e sociais, incluindo o contexto
adverso e a disforia de gênero (7). O manejo
multiprofissional deve integrar
fisioterapia, psicoterapia, educação em
saúde e farmacoterapia, com atenção às
possíveis interações medicamentosas e riscos
tromboembólicos (13). Ademais, protocolos de
dor crônica, já consolidados em condições
como fibromialgia e enxaqueca, precisam ser
adaptados à população trans, de modo a gerar
evidências locais e práticas mais inclusivas
(2,14).
Para além da
dimensão clínica, barreiras estruturais e
sociais continuam a impactar
significativamente o cuidado em saúde da
população trans. Há vieses nos processos de
recrutamento em pesquisas e no acesso aos
serviços, em que critérios rígidos de
diagnóstico e estética podem levar
indivíduos a ajustarem seus relatos para
atender expectativas institucionais, o que
resulta na exclusão de identidades não
binárias e na invisibilização de
diversidades (8). No campo social, o estigma
e a transfobia se manifestam em normas
restritivas e práticas discriminatórias,
como assédio, violência e exclusão, que
comprometem o acesso à saúde, à educação e a
tratamentos adequados (9–10). Essa
realidade, associada à disforia de gênero e
a fatores econômicos, emocionais e
hormonais, aumenta a vulnerabilidade a
condições dolorosas. Apesar das evidências
de maior prevalência de dor aguda e crônica
nessa população, a escassez de pesquisas
específicas mantém a invisibilidade e o
subcuidado clínico das pessoas transgênero
(11).
É nesse
cenário que a humanização se consolida como
princípio essencial do cuidado em saúde
transgênero. A escala THcH (Development and
validation of the Transgender Health Care
Humanization Scale) evidencia que o
atendimento deve ser pautado pelo respeito,
empatia, equidade e dignidade, orientando
práticas que ultrapassem os protocolos
biomédicos e promovam segurança, acolhimento
e reconhecimento das singularidades dessa
população (10). O cuidado deve ser
multiprofissional, sustentado por evidências
e alinhado às recomendações internacionais.
Os Padrões de Cuidado da WPATH (SOC-8) e as
diretrizes endócrinas da Endocrine Society
orientam desde a avaliação inicial até o
acompanhamento longitudinal (12,13). Essa
avaliação deve contemplar histórico de dor,
práticas de binding, cirurgias prévias e
comorbidades (8), bem como a monitorização
contínua dos níveis hormonais e dos sintomas
dolorosos, considerando a influência dos
hormônios em condições como enxaqueca e
outras síndromes dolorosas (1–3,12).
Ademais, a adoção de políticas públicas
inclusivas, práticas afirmativas e a
formação continuada de profissionais de
saúde são fundamentais para reduzir
experiências de discriminação, assegurar o
uso linguagem respeitosa, o reconhecimento
da identidade de gênero e a promoção de
práticas equitativas, fatores diretamente
associados a melhores desfechos em saúde,
ainda que muitas pessoas trans desenvolvam
resiliência e estratégias positivas de
enfrentamento. Por fim, pesquisas
sistemáticas sobre dor e qualidade de vida
são indispensáveis para embasar a elaboração
de protocolos clínicos adaptados e sensíveis
às especificidades da população trans (8).
Assim, os desafios e barreiras identificados
não apenas revelam lacunas clínicas e
científicas, mas evidenciam a necessidade
urgente de protocolos específicos de manejo
da dor e de estratégias multiprofissionais
que integrem as dimensões da experiência de
pessoas trans. Capacitar profissionais de
saúde para romper com práticas excludentes e
promover um cuidado equitativo e humanizado
é condição essencial para assegurar
dignidade, equidade e protagonismo às
pessoas trans, além de reduzir a
discriminação nos serviços de saúde,
reconhecida como fator de risco para
desigualdades em saúde nessa população.
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Anesth
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* Alunas de
Doutorado1/Mestrado2 e Docentes dos
Programas de Pós-graduação em Enfermagem3 e
Ciências e Tecnologias em Saúde4 da UnB.
Material desenvolvido na disciplina Ação
Multiinstitucional DOL- Dor On-line.