De acordo com
o filósofo Drew Leder, a dor física é uma
experiência à qual o luto, a depressão e o
isolamento social podem conferir textura e
intensidade [1]. O luto é uma vivência
humana universal, inevitável e profundamente
transformadora. Geralmente, as primeiras
imagens associadas a ele estão restritas à
tristeza, choro, perda e saudade. No
entanto, a chamada “dor psicológica”,
caracterizada por um estado de angústia
emocional profunda e avassaladora, que
também pode acompanhar o luto, não permanece
limitada ao campo emocional, mas desencadeia
respostas físicas neurobiológicas capazes de
alterar o funcionamento do organismo [2,3].
Dessa forma, o luto ultrapassa o campo
psicológico e produz repercussões físicas
reais e, muitas vezes, incapacitantes.
Indivíduos enlutados frequentemente relatam
dor no peito, fadiga intensa, cefaleia,
tensão muscular, distúrbios do sono e
exacerbação de condições dolorosas
pré-existentes. Mais do que uma reação
emocional, a perda de uma pessoa próxima
ativa mecanismos relacionados ao estresse
crônico, à inflamação e à sensibilização dos
sistemas envolvidos na transmissão,
processamento e percepção da dor, reforçando
a necessidade de compreender o luto como um
fenômeno sistêmico com profundas
repercussões sobre a saúde física e mental
[2,3].
O luto
desencadeia importantes alterações
emocionais, cognitivas e fisiológicas que
frequentemente se sobrepõem. Indivíduos
enlutados podem apresentar ansiedade,
depressão, isolamento social, alterações
cognitivas e distúrbios do sono, condições
que compartilham circuitos neurais com o
processamento da dor [4]. Paralelamente, o
luto atua como um potente agente estressor,
pois promove a ativação sustentada do eixo
hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA) aumentando
a liberação de cortisol, sistema responsável
pela resposta do organismo ao estresse. O
aumento da produção de substâncias
inflamatórias pelo corpo, como a citocina
pró-inflamatória interleucina-1β, também
pode provocar um conjunto de alterações
comportamentais conhecidas como
“comportamento de doença”, caracterizadas
por fadiga, desânimo, falta de apetite,
isolamento social, humor deprimido e maior
sensibilidade à dor. Em casos de luto
prolongado, estudos de neuroimagem também
demonstram alterações estruturais e
funcionais em áreas cerebrais envolvidas
tanto na regulação emocional quanto na
percepção da dor física [5,6].
Na prática
clínica, essa sobrecarga emocional e
neurobiológica pode se manifestar por meio
de diferentes sintomas físicos. Um dos mais
frequentes é a dor torácica associada ao
luto (grief-related chest pain), geralmente
descrita como um aperto ou pressão no peito
decorrente da tensão muscular induzida pelo
estresse e da maior ativação do sistema
nervoso simpático. Em situações mais graves,
a descarga excessiva de hormônios do
estresse pode desencadear a cardiomiopatia
de Takotsubo, conhecida como “Síndrome do
Coração Partido”, condição em que alterações
temporárias do músculo cardíaco simulam um
infarto agudo do miocárdio [7]. Estudos
demonstram, inclusive, que o risco de
eventos cardiovasculares aumenta
significativamente nas primeiras 24 horas
após a perda de uma pessoa próxima,
evidenciando o impacto direto do sofrimento
emocional sobre o organismo [7,8,9].
Além das
manifestações cardiovasculares, indivíduos
que vivenciam perdas de pessoas próximas
apresentam maior risco de desenvolver
quadros de dor crônica. O estresse
prolongado associado ao luto promove
alterações neurofisiológicas capazes de
aumentar a sensibilidade dolorosa,
favorecendo hiperalgesia, tensão muscular e
agravamento de dores pré-existentes.
Mudanças no sono, no autocuidado e na
regulação emocional também contribuem para a
manutenção desse estado de sensibilização
das vias de dor no sistema nervoso central
[8,10].
Pesquisadores
têm destacado a forte relação entre luto,
doenças crônicas e dor persistente. Nesse
contexto, Cole e Ratcliffe propõem que o
adoecimento prolongado decorrente da dor
crônica também pode ser compreendido como
uma experiência de luto não relacionada à
morte, marcada pela perda de possibilidades
de vida. Segundo os autores, a doença
compromete planos, papéis sociais, autonomia
e perspectivas futuras, produzindo rupturas
importantes no senso de identidade e na
forma como o indivíduo percebe o próprio
futuro. Assim, o luto e a dor crônica
compartilham experiências de perda,
vulnerabilidade e limitação existencial
[11]. Essa aproximação entre sofrimento
emocional e dor física também é evidenciada
por estudos clínicos e neurobiológicos.
Indivíduos em processo de luto e pacientes
com dor crônica relatam manifestações
semelhantes, incluindo exaustão intensa,
fadiga persistente e dores
musculoesqueléticas, além de sentimentos
recorrentes de vazio e vulnerabilidade [13].
Em pacientes com dor crônica, pesquisas
demonstram maior dificuldade em diferenciar
emoções negativas e sensações corporais
dolorosas, sugerindo uma integração mais
intensa entre sofrimento emocional e
percepção física da dor [12].
Resultados de
exames de neuroimagem funcional (Ressonância
Magnética Funcional, fMRI) reforçam a
conexão entre luto e dor crônica. Um estudo
realizado com mulheres que haviam perdido
mães ou irmãs em decorrência de câncer
mostrou que elas exibem níveis elevados de
citocinas inflamatórias, o que foi associado
à maior ativação de regiões cerebrais
relacionadas ao sofrimento emocional e à
dor. Esses resultados mostraram que a
inflamação desencadeada pelo luto modula
diretamente circuitos neurais envolvidos na
percepção dolorosa. Na prática clínica, essa
interação ajuda a explicar por que muitos
indivíduos descrevem o luto não apenas como
tristeza, mas como uma experiência física,
frequentemente percebida como dor física
real [14].
Embora o luto
seja uma experiência inevitável da condição
humana, seus efeitos ultrapassam o campo
emocional. A perda modifica o funcionamento
do cérebro, do sistema imunológico, das
respostas inflamatórias e dos mecanismos
envolvidos na percepção da dor, demonstrando
que sofrimento emocional e dor física não
devem ser compreendidos como processos
isolados. Diante dessas evidências, torna-se
fundamental validar as manifestações físicas
do luto e reconhecer que sintomas como dor
torácica, fadiga, distúrbios do sono e
exacerbação de dores crônicas não são
imaginários, mas respostas fisiológicas ao
sofrimento emocional. Reconhecer essa
interação é essencial não apenas para
ampliar o entendimento científico sobre o
luto, mas também para promover um cuidado
mais empático, integral e humanizado aos
indivíduos que convivem com a dor -
psicológica e física - da perda [15]. Nesse
contexto, o cuidado desses pacientes deve
envolver abordagem multidisciplinar, suporte
emocional e estratégias terapêuticas capazes
de auxiliar na elaboração da perda, na
redução do estresse e no manejo da dor.
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* Aluna de
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