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Editorial do mês

 

 

Ano Global IASP 2025 - manejo da dor, pesquisa e educação em todos os tipos de contextos de baixa e média renda
Ahmed Fentaw Ahmed e Flávia Diniz Mayrink *

 

A International Association for the Study of Pain (IASP) anualmente convida a comunidade científica e clínica a refletir sobre uma questão central e urgente relacionada à dor. Nos últimos 9 anos, o Portal DOL publicou 6 editoriais sobre o Ano Global da Dor.

 

Em 2016, o editorial sobre o Ano Global destacou o impacto das doenças articulares e a importância de compreender sua fisiopatologia e manejo multidisciplinar. Em 2017, o Ano Internacional contra a Dor após Cirurgias trouxe à tona os desafios da dor aguda e o risco de cronificação pós-operatória, incentivando práticas baseadas em evidências. Em 2018, o foco se voltou para a formação profissional, com o Ano Global da Excelência na Educação da Dor, reforçando a necessidade de integrar o ensino sobre dor em todos os níveis da educação em saúde. Já em 2019, a IASP dedicou o Ano Global contra a Dor nos Mais Vulneráveis a uma chamada emergencial por equidade no cuidado, alertando para a exclusão de grupos em situação de vulnerabilidade social, econômica e de saúde. O Ano Global da Dor Lombar, em 2021, consolidou-se como um marco na disseminação de estratégias de prevenção e tratamento dessa condição que afeta milhões de pessoas mundialmente. Em 2022, o tema Traduzindo Conhecimento sobre Dor à Prática Clínica enfatizou a necessidade de converter a pesquisa científica em ações concretas que melhorem o cuidado cotidiano dos pacientes [1-7].

 

Em 2025, o Ano Global examinará o manejo da dor, pesquisa e educação em todos os tipos de contextos de baixa e média renda, como em países de baixa e média renda (PBMRs), povos aborígenes, grupos culturalmente diversos e refugiados em países de alta renda. A IASP convida a refletir sobre como promover o cuidado equitativo da dor em contextos marcados por desigualdades socioeconômicas e estruturais [8].

 

A dor, embora universal, é vivenciada e tratada de forma desigual. Em países de baixa e média renda milhões de pessoas continuam sem acesso a terapias eficazes, medicamentos essenciais e profissionais capacitados. Essas pessoas vivem com dor não tratada ou subtratada devido à escassez de recursos, infraestrutura inadequada, barreiras no acesso a medicamentos e insuficiência de formação profissional. A ausência de políticas públicas específicas e a limitação no uso seguro de opioides refletem uma crise silenciosa de inequidade em saúde. [9].

 

Nesse sentido, a IASP reconhece que fortalecer a educação e a pesquisa é essencial para transformar realidades locais e construir sistemas de cuidado sustentáveis. Nos PBMRs, a produção científica sobre dor enfrenta desafios estruturais desde o financiamento até a visibilidade internacional, mas é justamente nesses contextos que emergem soluções inovadoras, culturalmente adaptadas e baseadas em comunidades [9]. O Ano Global 2025 propõe valorizar essas experiências e fomentar redes colaborativas regionais e globais para ampliar o impacto do conhecimento local.

 

Foram estruturados mecanismos estratégicos para fomentar e divulgar os conceitos da dor em contextos com poucos recursos. Um dos primeiros mecanismos é a constituição de um Grupo de Trabalho (Task Force), com participantes de diferentes regiões geográficas e perfis profissionais, incluindo pesquisadores, profissionais de saúde e educadores de PBMRs. Esse grupo supervisiona as ações do ano global, assegurando perspectiva contextualizada.

 

É necessário identificar desafios e oportunidades na abordagem da dor em PBMRs, advocar por maior financiamento para pesquisa de qualidade nesses contextos, explorar mecanismos para melhorar a educação de profissionais de saúde nessas comunidades, aumentar acesso a manejo da dor de alta qualidade, promovendo ações de autocuidado com baixo custo e incentivar o cuidado interdisciplinar e multidisciplinar [10].

 

Para gerar impacto prático, há uma série de ações (outputs) planejados: emissão de factsheets por especialistas, webinars, destaques em periódicos como PAIN e PAIN Reports, tradução de documentos informativos para múltiplos idiomas, com o objetivo de alcançar pacientes, profissionais de saúde, pesquisadores e formuladores de políticas de saúde.

 

A IASP oferece ainda recursos especializados, como o Pain Management Center Toolkit, para apoiar a criação ou fortalecimento de serviços de dor em ambientes com recursos limitados.

 

Temas importantes são tratados em Webinars via o aplicativo PERC (Pain Education Resource Center), com temas como “Implementing Interdisciplinary Pain Management in Limited Resource Settings”, “Enhancing Equity, Diversity and Inclusivity in Pain Research”, entre outros.

 

Outra estratégia é a adaptação de diretrizes globais para contextos locais, reconhecendo que protocolos ou recomendações desenvolvidos para contextos de alta renda muitas vezes não se aplicam diretamente em contextos de escassez de recursos. A adaptação requer consideração de fatores culturais, infraestrutura existente, acesso a medicamentos, habilidades disponíveis, dentre outros. Esse tema é apresentado em um dos artigos selecionados pela IASP, o qual indica os itens mais relevantes para a equidade em pesquisa sobre dor: um estudo e-Delphi modificado [11].

 

Além disso, a IASP busca envolver a todos por meio de advocacy e engajamento, com campanhas de conscientização usando mídias sociais (#GlobalYear2025), colaboração com parceiros locais e mobilização de formuladores de políticas para reconhecerem a dor como uma questão de saúde pública que demanda intervenções sustentáveis.

 

Por fim, há ênfase em monitoramento e mensuração do progresso, ainda que o site do Ano Global não apresente um painel de indicadores completo, as ações planejadas (webinars, fact sheets, traduções, desenvolvimento curricular, pesquisa) permitem rastrear o alcance, engajamento e mudanças de prática ao longo do ano. Esse monitoramento é fundamental para avaliar o impacto real do ano global.

 

Referências:

[1] IASP. Global Year Against Pain in the Joints (2016). Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2016-joint-pain/

[2] IASP. Global Year Against Pain After Surgery (2017). Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2017-pain-after-surgery/

[3] IASP. Global Year for Excellence in Pain Education (2018). Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2018-pain-education/

[4] IASP. Global Year Against Pain in the Most Vulnerable (2019). Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2019-pain-in-the-most-vulnerable/

[5] IASP. Global Year About Back Pain (2021). Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2021-back-pain/

[6] IASP. Global Year for Translating Pain Knowledge to Practice (2022). Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2022-translating-pain-knowledge-to-practice/

[7] IASP. Global Year 2025: Pain Management, Research, and Education in Low- and Middle-Income Settings. Disponível em: https://www.iasp-pain.org/resources/global-year/2025-pain-management-research-education-lmic/

[8] DOL – Dor Online. Editorais dos Anos Globais da IASP (2016–2022). Disponíveis em: https://dol.dor.org.br/

[9] Morriss, W. W., & Roques, C. J. (2018). Pain management in low- andmiddle-income countries. In BJA Education (Vol. 18, Issue 9, pp. 265–270). Elsevier Ltd. https://doi.org/10.1016/j.bjae.2018.05.006.

[10] Soyannwo, O., Chaudakshetrin, P., & Garcia, J. B. (2023). The value of the International Association for the Study of Pain to developing countries. Pain, 164(11S), S39–S42. https://doi.org/10.1097/j.pain.

[11] Karran EL, Cashin AG, Barker T, Boyd MA, Chiarotto A, Maxwell LJ, Mohabir V, Sharma S, Tugwell P, Moseley GL. Developing consensus on the most important equity-relevant items to include in pain research: a modified e-Delphi study. Pain. 2025 Oct 1;166(10):e378-e387. doi: 10.1097/j.pain.0000000000003621. Epub 2025 Apr 16. PMID: 40258130.


* Alunos de pós-graduação da disciplina "Ação Multi-institucional de Divulgação Científica DOL - Dor On Line - FCTS UnB