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Editorial do mês |
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Como a neurociência revoluciona o manejo
da dor crônica
Karina
Brito da Costa Ogliari e Marta Oliveira de
Araújo*
A dor pode ser
classificada como aguda e crônica. A dor
aguda pode funcionar como fator protetor
para evitar ou prevenir o agravamento de uma
lesão recente. Porém a dor crônica, pode
impactar negativamente a funcionalidade do
indivíduo com a diminuição progressiva das
atividades diárias e restrição de contatos
sociais, afetando sua qualidade de vida e
trazendo consequências prejudiciais para a
saúde. De acordo com estudos realizados na
população brasileira a prevalência nacional
de dor crônica é de cerca de 40%, estando
essa parcela da população sujeita às
repercussões do processo de dor, que pode
influenciar negativamente todo o ciclo de
vida. Quando se considera os mecanismos
fisiopatológicos, a dor pode ser
classificada em nociceptiva, neuropática e
nociplástica, e quando coexistem há a
denominação de “dor mista”. A dor
nociceptiva é aquela causada pela ativação
de nociceptores e vias de condução da dor em
resposta a estímulos potencialmente nocivos.
A dor neuropática é decorrente de lesão ou
doença do sistema nervoso somatossensitivo.
E a dor nociplástica é definida como uma
“nocicepção alterada”, em que as vias
neurais de transmissão e processamento da
dor se encontram sensibilizadas, de modo que
a dor pode estar presente mesmo que não haja
evidência de lesão tecidual1-4.
Além dos
mecanismos físicos geradores de dor, cada
indivíduo constrói seu conceito de dor,
influenciado por fatores psicológicos,
sociais e de suas experiências dolorosas
prévias3. Fenômenos como
sensibilização periférica e central,
neuroplasticidade e falhas nos mecanismos
inibitórios da dor evidenciam a interação
dinâmica entre vias sensoriais neuronais,
cérebro e fatores emocionais no processo de
cronificação dolorosa5. A dor crônica está
associada a mudanças significativas na
conectividade cerebral, especialmente em
áreas como o córtex pré-frontal, sistema
límbico e tálamo, responsáveis pelo
processamento sensorial, emocional e
cognitivo da dor6. Portanto, a
neurociência desempenha um papel importante
na compreensão da dor e pode auxiliar no
desenvolvimento de novas abordagens
terapêuticas.
A importância
da neurociência da dor reside na sua
capacidade de orientar o desenvolvimento de
intervenções mais eficazes e personalizadas.
Pesquisas mostram que a dor crônica está
associada à reorganização funcional do
cérebro, resultando na hiperativação de
regiões envolvidas na percepção emocional,
como a amígdala, o que intensifica o
sofrimento. Esse conhecimento tem
impulsionado tratamentos inovadores, como
neuromodulação, estimulação cerebral e
terapias cognitivo-comportamentais, que
visam modificar diretamente os mecanismos
neurais da dor. Além disso, estudos sobre
biomarcadores específicos da dor poderão
contribuir para a oferta de ferramentas
promissoras para diagnósticos mais precisos
e abordagens terapêuticas individualizadas6.
Os aspectos
psicológicos desempenham um papel central na
experiência da dor crônica. Estados
emocionais como ansiedade, depressão e
pensamentos catastróficos são comuns em
pacientes e têm um impacto direto na
amplificação da percepção da dor. A
neurociência destaca como esses estados
emocionais são modulados por circuitos
neurais que também processam a dor,
reforçando a necessidade de abordagens
integradas. Intervenções como terapia
cognitivo-comportamental e mindfulness têm
demonstrado eficácia na redução da dor, ao
mesmo tempo em que aliviam o sofrimento e
promovem maior controle emocional. Assim, a
combinação de estratégias neurocientíficas e
psicológicas é essencial para o manejo
holístico da dor crônica, sendo alinhada às
diretrizes do Protocolo Clínico e Diretrizes
Terapêuticas da Dor Crônica (PCDT)7.
O Sistema
Único de Saúde (SUS) defende a abordagem
clínica ampliada voltada para práticas
humanizadas e que tenham por princípio a
integralidade, pois as experiências de dor
precisam ser consideradas em sua totalidade
além da dimensão orgânica8. Nesse
sentido foi publicada a Portaria Conjunta
SAES/SAPS/SECTICS Nº 1, de 22 de agosto de
2024 que aprova o Protocolo Clínico e
Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Dor
Crônica. O PCDT (2024) sugere a combinação
de abordagens terapêuticas farmacológicas e
não farmacológicas, em que o objetivo
principal é reduzir o sofrimento do
paciente, promover melhorias na qualidade de
vida e na funcionalidade do indivíduo. O
tratamento não medicamentoso inclui técnicas
para o controle da dor com medidas
educacionais, físicas, emocionais e
comportamentais, que fornecem ao indivíduo
um senso de controle da situação e estimulam
a participação no tratamento7.
O PCDT (2024)
inclui como estratégias não farmacológicas a
implantação de programas educativos como
intervenção e fonte de informação, atividade
física para melhora do condicionamento
físico, agulhamento seco e compressão
isquêmica de pontos gatilhos, recursos
físicos como ondas de choque e ultrassom
terapêutico, terapias manuais, acupuntura e
terapia cognitivo comportamental (TCC)7.
A seguir são
destacadas algumas abordagens terapêuticas
combinadas ao processo educativo. A Educação
em Neurociência da Dor (END) é orientada
biopsicossocialmente e pode influenciar
favoravelmente a cognição e crenças do
indivíduo, por meio da reconceitualização de
sua dor9. Foi demonstrado que a
END melhora significativamente a
catastrofização da dor, a cinesiofobia, a
intensidade da dor, a incapacidade, a
hipervigilância, a ansiedade e as atitudes e
crenças em pacientes com diferentes
condições de dor musculoesquelética crônica10,11.
Um ensaio
clínico randomizado realizado com 69
participantes de idade entre 45–60 anos
comparou a eficácia da educação em
neurociência da dor em grupo e
individualmente em pacientes com dor lombar
crônica, além de analisar a influência dos
determinantes sociais da saúde nos
resultados pós-tratamento. A END
contextualizada pode ser uma abordagem para
melhorar a condição clínica desses pacientes12.
Isso pode ocorrer porque influencia as
cognições da dor, um aspecto importante no
círculo vicioso da sensibilização central em
pacientes com dor lombar crônica, mesmo
quando nem todos apresentam tal
sensibilização. O estudo mostrou que a END
realizada em modalidade de grupo facilita a
aprendizagem através da observação social, o
que proporciona uma influência positiva
devido à observação dos comportamentos
exibidos por outros participantes13.
Uma revisão
sistemática baseada em metanálise e ensaios
clínicos evidenciou alternativas para o
manejo de pacientes com dor lombar crônica.
O estudo demonstrou os benefícios do
agulhamento seco, que consiste na inserção
de uma agulha fina no músculo para tratar os
pontos-gatilho miofasciais, e concluiu que a
intervenção pode ser mais eficaz para
redução da intensidade da dor
pós-intervenção quando usado em associação
com outros tratamentos, como por exemplo
fisioterapia e educação em neurociência14.
Outra
possibilidade terapêutica que pode
contribuir para melhora da lombalgia crônica
são os exercícios físicos. Um ensaio clínico
randomizado realizado com 80 pacientes
divididos em dois grupos, grupo Pilates
combinado com educação em neurociência da
dor e grupo controle, concluiu que o Pilates
é uma intervenção segura para pacientes
idosos com dor lombar crônica inespecífica e
a educação em neurociência da dor pode
aumentar a adesão ao exercício nessa
população15.
Além dos
exercícios, outra técnica abordada na
literatura é mindfulness, que pode ser
definido como uma prática que integra a
mente e o corpo visando, principalmente, a
redução do estresse e a orientação da
consciência para o momento presente16.
O estudo experimental controlado e
randomizado dividiu os participantes em dois
grupos: grupo mindfulness e grupo
mindfulness com educação em neurociência da
dor. Os resultados apontaram que as
intervenções baseadas na prática de
mindfulness associada a educação em
neurociências da dor se mostraram mais
eficazes na melhora do quadro de pacientes
com fibromialgia em relação apenas ao grupo
mindfulness17.
Conforme o
exposto, nota-se a complexidade que envolve
o manejo da dor crônica e isso gera desafios
para seu devido controle. As abordagens
multidisciplinares podem ser mais eficazes
para o tratamento da dor crônica do que a
farmacoterapia isolada, e devem incluir
intervenções físicas, psicológicas e
farmacológicas. No entanto, a
disponibilidade dessas intervenções na
prática clínica ainda é um obstáculo
significativo. De acordo com a literatura,
ainda há barreiras ao acesso, como custos,
falta de cobertura do plano de saúde e falta
de provedores treinados, o que pode impedir
que muitos indivíduos com dor crônica
recebam o tratamento de que precisam18.
Pesquisas
futuras devem se concentrar em identificar
os mecanismos subjacentes à dor crônica,
desenvolver novas e mais eficazes
intervenções e explorar estratégias para
personalizar o tratamento com base nas
necessidades e características individuais
dos pacientes. A publicação do PCDT para dor
crônica trouxe um grande avanço ao abordar
possibilidades terapêuticas combinadas,
dentre elas a educação em dor, que por meio
da neurociência pode evoluir com novas
possibilidades para o tratamento eficaz da
dor crônica corroborando com os achados
científicos. Por outro lado, novas
estratégias e políticas públicas são
necessárias para reduzir as barreiras ao
acesso dos pacientes ao tratamento da dor
crônica.
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* Alunas de
doutorado - UnB - disciplina da
Pós-Graduação.
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